Memórias de um clássico

Por Fernando • Feb 11th, 2008 • Categoria Geral

Não faz tanto tempo assim, também não sou tão velho. Era inverno de mil novecentos e noventa e nove, o causo que conto vai fazer 9 anos. Era até século XX, ainda, por isso ainda destaco o charme da época e falo de memórias. Voltando ao que interessa, regrido à 1999. Era final do campeonato catarinense e o Figueirense era o franco favorito. A partida não envolvia somente a rivalidade já tradicional, era mais do que isso: era um grito de um desesperado, o alvinegro havia sido campeão em 94 com muito sofrimento (como sempre o é, nós lidamos bem com este sentimento) e o jogo teve um terceiro tempo no tapetão. Era a oportunidade de lavar a alma.

Mas nessa fatídica partida na Ressacada eu fui com meu velho pai, ambos trajados à rigor e o preto e branco já circulava em nossas veias, tamanha era o nosso envolvimento emocional e físico com o jogo. Perdemos o jogo. Não importaria a derrota analisada de um ponto de vista mais frio e técnico. O problema é que pela demora ao chegar no estádio, mesmo tendo saído duas horas antes do horário marcado, acabamos sem lugar na torcida alvinegra, mesmo com ingresso na mão. Tive que ir ao banheiro e cometer a heresia de colocar o manto sagrado por baixo da jaqueta e apesar dos 10 graus registrados, o termômetro da situação aguçava o calor do corpo que já se sentia agoniado com tanta vestimenta de torcedor travestido em torcida alheia.

Foram os 90 minutos mais sofridos da minha vida. É típico da organização do Avaí fazer esse tipo de coisa. Vender mais ingressos do que é possível e mandar o torcedor visitante à mercê dos frustrados entusiastas avaianos é como jogar denovo Daniel (sem trocadilhos) na cova dos leões. Essa história também aconteceu ontem, teve torcedor do Figueirense apanhando na torcida azurra. Não é a toa que sempre andam à margem das grandes competições, das grandes contratações e não chegam a lugar nenhum. É a falta de caráter, é a deslealdade de perder a guerra no campo e apelar para as coisas secundárias, tipo de picuinha de guri pequeno – aqui, TIME pequeno.

A minha primeira coluna que, não coincidentemente, foi produzida após o clássico de número 383 com goleada do Figueirense em cima do “Avaê” por 3 tentos a zero, não analisará tecnicamente espetáculo de bola que aconteceu ontem no manguezal.

Mas vai um recado para a administração do ex-clube mais vezes campeão: apagar os refletores do estádio após estar sendo derrotado em casa e perder a liderança do campeonato, é atitude de clube MEDÍOCRE. E por mais que apaguem as luzes, nenhum torcedor de vocês deixou de ver o próprio time sendo humilhado em casa, goleado, sem poder de reação, sem vontade nenhuma e, sobretudo, apanhar do rival. Mas apanhar no campo, com hombridade, com garra, por merecimento e competência e não como os torcedores que pagaram ingresso e botaram algum dinheiro no caixa, que tiveram que ficar a mercê não somente dos tradicionais mosquitos do mangue, mas dos torcedores revoltados com mais uma lição de incompetência do seu time.

O torcedor do Avaê não vai poder na segunda-feira apagar as luzes onde trabalha na tentativa de apagar o brilho da derrota. Pelo contrário, será o personagem principal do ambiente com direito a holofotes e tudo mais.

Ah, sim, ia me esquecendo; quanto ao clássico de 1999, de lá pra cá nada mudou. De lá pra cá, o Avaí continua na Série B, o Avaí não ganhou nenhum título catarinense que seja e sempre agiu como cavalo de bandido que começa na frente e termina atrás.

A dúvida é: até quando vamos ter que dar aulas de administração, aulas de futebol, ensinar a não ser um clube e um time medíocre que precisa contar com o fator X fora de campo, e que agir dessa forma não levou o Avaí a lugar nenhum ficando estagnado desde o século passado?

Mas clássico é clássico e também não é coincidência a descrição do blog tem essa frase forjada para a posteridade. Forjadas também estarão as memórias dos clássicos que não se apagam como as luzes da Ressacada.

Fernando é Analista de Sistemas e Blogueiro... Natural de Florianópolis/SC
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